Testemunho na primeira pessoa do terrível e duro fantasma que é viver com depressão

21
Jul 08

Este testemunho que vou relatar não é meu, mas de Pedro,uma pessoa que não conheço, mas que admiro e com quem me identifico bastante. Pedro escreveu o que sentia e permitiu que isso constasse de um dos livros da ADEB (Associação de doentes Depressivos e Bipolares).

O que li no seu testemunho fez-me ter vontade de escrever também o que sinto, de ter o meu próprio espaço, anónimo, na net, e isto porque assim posso dizer o que sinto, como me encontro realmente, sem me preocupar com a crítica dos outros, com discursos piedosos ou moralistas daqueles que nos conhecem e ainda daqueles que até nos querem bem mas não sabem como reagir, nem o que dizer.Por agora vou tomar a liberdade de citar o  testemunho de Pedro:

 

INVISÍVEL ESCURIDÃO

 

"Estou deprimido. Não é a primeira vez. É horrível. Não é estar triste por causa disto ou daquilo, são sempre tantos os motivos para estar triste, é uma doença que vem quando quer e nos afasta do modo habitual como vivemos no mundo, em que a corrente da vida que nos transporta falha, largando-nos isolados num margem.

 

A culpa é das sinapses entre os neurónios que deixam de funcionar como deviam. E então, um tristeza funda, inamovível, eterna, ocupa-nos a alma.

O acordar é o pior. Saber que se tem tantas horas pela frente e nada fazer de um só minuto. O tempo é o pior inimigo, mete muito medo, aterroriza. Nas suas mãos somos um joguete. Mal acordo, a suar frio, ainda antes de abrir os olhos, mastigo um Xanax para tentar controlar a ansiedade que sobe numa maré desenfreada.

 

A princípio é um medo puro, sem objecto identificado, mas dentro em breve, como se buscasse uma qualquer coisa onde se agarrar, vai encontrar primeiro uma e depois outra e ainda outra numa cadeia infernal sobre a qual não tenho qualquer controlo e não encontro qualquer lógica. São só pensamentos dolorosos que assustam: memórias pessoais há muito enterradas, dilemas, projecções mais do que pessimistas, detalhes mórbidos de coisas que se viram ou ouviram, a incapacidade absoluta de poder resolver o mais pequeno problema que seja. A luz, revelando o contorno das coisas, insistindo em que o mundo perdura para além da nossa vontade, é uma violência, uma agressão. Ao pequeno-almoço engulo o primeiro antidepressivo do dia.

 

Tudo o que antes era natural, se fazia sem fazer caso, não levantava problemas, torna-se agora incerto, complexo, confuso. Por exemplo, uma pessoa ter um corpo que se mexe. Uma pessoa ir daqui para ali, digamos dez metros, pode parecer uma tarefa impossível. O corpo parece que se divorciou da vontade e já não quer saber dela, é um peso morto que não obedece.

Uma pessoa sentar-se, não é simplesmente uma pessoa sentar-se, é uma série de cálculos, de projecções no espaço que, estranhamente, um corpo se vai colocar sobre outro, processo que tem as suas demoras, hesitações, ajustes. Se fazer a barba nos pode deixar ofegantes de cansaço, ver alguém a correr parece-nos um feito surpreendente de uma raça, à qual nós já não pertencemos. Isto dói, continua a meter medo, a afastar-nos do mundo onde sabemos que outrora vivemos, mas não sabemos se podemos regressar.

 

A possibilidade de uma pessoa se sentir agredida por uma pergunta inofensiva cresce vertiginosamente. Perguntam-me, com um sorriso, pela idade do meu filho, a culpa faz-me um nó no estômago por nunca ter sabido viver com ele, a minha cara torna-se uma máscara, perguntam-me se me estou a sentir bem, digo que estou com uma queda de tensão, e fujo.

O mundo sempre me pareceu um lugar estranho e algo confuso, mas agora é simplesmente um lugar onde não consigo encontrar qualquer sentido. Se continuo é por uma inércia, a pequena lucidez de saber que isto é uma doença que bate e passa, que tenho o dever de resistir.

 

Dentro do carro, de manhã à tarde, escorrem-me as lágrimas pela cara. Se me perguntassem porquê, não saberia dizer porquê. É um pequeno alívio que ajuda a descontrair os músculos da cara. Continuamos no mundo, mas desfocados dentro dele. Os contornos de quem somos ou de quem seríamos esbateram-se. Confundimo-nos com o que não somos. Baralhou-se o passado que nos trouxe até aqui, o sentido. Sim, estar deprimido é um problema de tempo e um problema de sentido, uma forte e perigosa gripe metafísica. O tempo aparece como uma massa informe, pegajosa, impenetrável porque o sentido que o podia ordenar se ausentou, fez greve, sumiu. Ora não havendo futuro não há passado nem presente, não há nada. As sinapses dos meus neurónios mandaram-me passear, não vale a pena pensar, decretaram. E eu fiquei perdido como uma criança no meio de uma floresta muito escura.

 

Tudo o pouco que consegui fazer parece-me menos que nulo ao pé do que falhei: as amizades desfeitas, os amores naufragados, os projectos fracassados, as esperanças que se revelaram ilusões. Feitas as contas,o resultado é irremediavelmente negativo. Porque, como se não bastasse, a culpa acompanha sempre a depressão.

 

A culpa de ser tão fraco, de não ter feito o que devia, a culpa de me faltar a coragem para vencer esta dor que me ocupa por inteiro, quando tantos, em situações tão mais difíceis do que a minha, continuam a viver e eu não penso senão em poder livrar-me dela. Nestes casos, uma pessoa quer morrer não porque quer qualquer coisa, mas porque simplesmente já não aguenta a dor que sente. A alegria parece-nos uma possibilidade para sempre erradicada. O desejo esvaneceu-se como pensamento, quanto mais como acto. A morte substitui por completo o sexo, num eclipse total e permanente. Nem apetece comer. Nem sequer um pouco de música. Quando muito, devagar, a leitura ao fim da tarde de uns parágrafos de um livro já lido em que nos lembramos um pouco de nós.

Quem, felizmente, nunca passou por isto, não pode saber o que isto é. Melhor para eles,pior para nós. Porque ao isolamento de quem se sente posto cruelmente entre parênteses pela vida, acresce a dificuldade extrema em fazer reconhecer o seu tormento.

 

Quantas horas passam, eu a imaginar uma debilidade visível que viesse sibstituir uma doença que nem se vê? Uma fractura, uma hepatite, uma pedras nos rins ( e eu sei do que falo). É que, para cúmulo, para além deste sofrimento muito intenso ainda tenos a vergonha de o sentir, do tempo que estamos a perder, das pessoas que estamos a preocupar. Não é só difícil explicar que se tem medo de andar de carro, que se tem medo de abrir o e-mail, de atender o telefone, que se vive na expectativa de uma catástrofe iminente que se ignora por completo qual é - é angustiante porque sentimos que isto que estamos a tentar dizer à outra pessoa não pode deixar de lhe parecer, até certo ponto, inverosímil, porque para nós, em certa medida, também o é.

 

Há uma parte de nós que está doente e outra parte de nós que olha atónita para a primeira e pergunta: «Tu, que num ano enviaste mais de 1500 e-mails, agora tens medo de abrir o e-mail? Tens medo de quê? Tu és mas é um cobarde.» Os dois eus estafam-se num diálogo sem saída. O que de facto mete medo não é a realidade, são as infinitas antecipações da realidade num tempo que encravou.

Para mim, as coisas só melhoram ao entardecer. A noite vem apagar o contorno das coisas, que me faria, e vai permitir que a minha alma se dissolva no universo. As coisas deixam de ser as coisas e eu vou deixar de ser eu. O enorme cansaço do mundo que se arrasta sem fim vai ter um momento de paz.

 

O problema está em que sei que mal adormeça, logo acordo, que não vou poder viver a paz que queria viver, porque estarei a dormir. E, então, volta de novo o medo, o medo de adormecer, porque adormecer significa, voltar dentro de momentos a acordar com a mesma companhia. Mas para isso, também há medicamentos.

O meu excelente amigo e poeta Luís Quintais enviou-me uma mensagem electrónica: «Ontem, li uma coisa de um psiquiatra que dizia que a depressão éo único estado mórbido do qual se sai sempre mais forte.»Os deprimidos agradecem o optimismo."

 

 

publicado por fantasma-depressao às 16:48

Olá, eu compreendo este texto porque eu também sinto e passo pelo mesmo. é como se o tempo congela-se e nada do que faça e diga transmita energia, sentido, porque infelismente não sinto o que exprimo. Agora tento continuar a procurar pois sinto que é a unica solução que me resta, se vou conseguir? Se vou fracassar? Não sei não tenho esse direito de poder visualizar, mas no meu interior sei que não posso parar e submeter a vontade desta doença, que nem a cara dá para a pudermos confrontar. Força.
cibelediario a 19 de Dezembro de 2009 às 12:42

A depressão tem cura, alguma não, mas toda tem um remédio que alivia.
Eu tomo anti-depressivos há imensos anos, há cerca de 5 o meu psiquiatra receitou-me um de última geração: Cymbalta, talvez este anti.depressivo o possa ajudar.
helena marques a 20 de Junho de 2012 às 22:13

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